sábado, 8 de janeiro de 2011

Síndrome de Abstinência do Poder

O REI SAUL ficou angustiado, quando viu o jovem Davi surgir como seu sucessor. Sentiu que aos poucos o poder escorria de suas mãos.

No auge do seu desespero, consultou uma feiticeira, e diante dela confessou: “Estou muito angustiado, porque os filisteus guerreiam contra mim, e Deus se tem desviado de mim e não me responde mais, nem pelo ministério dos profetas, nem por sonhos; por isso, te chamei a ti, para que me faças saber o que hei de fazer” (1 Sm 28.15).

Na verdade, Saul gostaria de continuar como rei até o fim da vida.

O desespero de Saul tem conotação espiritual, porém está patente que, mesmo antes de ser substituído, já padecia diante da perspectiva de perder a coroa de rei.

Para muitos governantes, é doloroso ter que assimilar e administrar o fim de um mandato. Não é fácil perder as benesses palacianas, aplausos e reverências, encômios, abraços e principalmente o poder.

Regra geral, os políticos escondem a síndrome, ou tentam faze-lo. Para eles, falar abertamente da solidão do poder demonstra fraqueza.

No Brasil, temos o exemplo dado pelo presidente Lula, com suas próprias palavras: “Se eu pudesse, não passaria a faixa presidencial. Sabe, sairia com ela pelos fundos do palácio”. Esta é a síntese de um sentimento de perda que cresce na medida em que se aproxima o dia D, o dia da entrega do cargo. A revelação foi em tom de brincadeira, mas creio nas suas palavras: “Do que há em abundância no coração, disso fala a boca” (Mt 12.34). A síndrome se instalou em sua alma muito antes de passar a faixa presidencial à sucessora Dilma.

A síndrome dessa abstinência não é privilégio dos homens públicos. Em maior ou menor grau, dependendo das idiossincrasias de cada qual, ocorre em todas as áreas da atividade humana.

Poderá acontecer com executivos, gerentes de banco, sacerdotes. Aposentados há que recorrem à psicologia para superarem os transtornos causados pela repentina inatividade.

Transtornos dessa espécie podem ser aliviados ou superados quando se tem consciência de que a vida é como uma nuvem que passa. É efêmera como efêmeros são os cargos que ocupamos. Os cargos não são permanentes.

Quem não aceita essa realidade passará por problemas existenciais. Não tratados convenientemente, poderão causar sérios transtornos.

Autor: Pr. Airton Evangelista da Costa

Por Lidiomar

Graça e Paz