sábado, 13 de agosto de 2011

A MALDIÇÃO DA FIGUEIRA: Injustiça de Jesus Cristo? - Parte 3


              A dificuldade em se perceber que o episódio da figueira seca é uma parábola viva, constituída de ações simbólicas de Cristo, deve-se, fortemente, ao fato de que o segundo momento dessa comunicação profética – o da verbalização, o da fala explicitadora – não se seguiu imediatamente à encenação real e não se fez em linguagem direta. MAS SE FEZ!


               Encontra-se, o referido momento, distanciado do primeiro e na forma de uma parábola verbalizada. Tal parábola é, essencialmente, a versão - assumida como parábola - do episódio da figueira amaldiçoada. Trata-se de um registro feito pelo evangelista S.Lucas (Lc 13.6-9). Ei-lo: "E [Jesus] dizia esta parábola:"Um certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha, e foi procurar nela fruto, não o achando; e disse ao vinhateiro: Eis que há três anos venho procurar fruto nesta figueira, e não o acho; corta-a; e respondendo ele, disse-lhe: Senhor, deixa-a este ano, até que eu a escave e esterque; e,se der fruto, ficará; e, se não, depois a mandarás cortar".


                Como se pode ver, a linha-mestra – tanto na sequência de ações, no episódio da figueira seca, quanto no enredo da figueira estéril – constrói-se com os mesmos elementos: um homem, uma figueira, uma expectativa frustrada, uma punição. Ora, tais elementos estruturais aparecem num oráculo do profeta Isaías, no Velho Testamento, com o título de "A parábola da vinha, e sua aplicação" (Is 5.1-7aproximadamente700 a.C.). É importante transcrevê-la, pois ela fornece a chave exegética para a interpretação da parábola da figueira estéril, registrada por Lucas, e, consequentemente, do episódio parabólico da figueira seca (ou amaldiçoada), registrado objetivamente por Marcos, em estilo de reportagem jornalística. Vejamo-la:


           "Agora cantarei ao meu amado o cântico do meu querido a respeito da sua vinha. O meu amado tem uma vinha em um outeiro fértil. E a cercou, e a limpou das pedras, e a plantou de excelentes vides.[...] E esperava que desse uvas, mas deu uvas bravas. Agora, pois, ó moradores de Jerusalém e homens de Judá, julgai, vos peço, entre mim e a minha vinha. Que mais se podia fazer à minha vinha, que eu lhe não tenha feito? E como, esperando que desse uvas, veio a produzir uvas  bravas? Agora, pois, vos farei saber o que hei de fazer à minha vinha: tirarei a sua sebe, para que sirva de pasto; derribarei a sua parede, para que seja pisada; [...] Porque a vinha do Senhor dos Exércitos é a casa de Israel, e os homens de Judá são a planta de suas delícias; e esperou que exercessem juízo, e eis aqui opressão; justiça, e eis aqui clamor".


             Considere-se: a vinha, apontada pelo profeta como propriedade do Senhor dos Exércitos (Deus), é, por extensão, propriedade do Seu Amado, conforme o declarou o próprio Deus, intermediado por Isaías. Em duas passagens bíblicas (Mt 3.16-17; e 17.5; e Lc 20.13), a voz de Deus ecoa do céu, identificando Jesus como o Seu Amado.


              Ora, se o dono da vinha é Jesus Cristo, Ele é, igualmente, o dono da figueira estéril, já que vinha e figueira são símbolos teológicos de Israel. (Em certo momento da história do povo judeu, por exemplo, o Senhor deu a Jeremias a visão de dois cestos de figos, representando esse mesmo povo; na época, os exilados deJudá e o restante de Jerusalém - Jer 24).


              Partindo-se, então, desse ponto básico, desencadeia-se a interpretação da parábola da figueira estéril, registrada por Lucas, que temos apontado como a tradução em palavras do episódio da figueira seca, relatado por Marcos. Entendamos: o dono da vinha é Jesus Cristo; a vinha é a nação israelita; a figueira estéril é o povo judeu, dominado, conforme Tasker, pelo legalismo estéril, pelo cerimonialismo perfunctório de uma religiosidade morta, reduzida a ritos; a procura de três anos são os três anos do ministério de Cristo, empenhando-se em converter Israel à sua Mensagem; o vinhateiro é o Espírito Santo, como a própria Longanimidade de Deus, pedindo-lhe clemência. (O apóstolo Paulo fala da extraordinária ação intercessória do Espírito Santo - Rm 8.26);o ano de contemporização, aquele ano a mais, solicitado pelo vinhateiro, para escavar e estercar a vinha, é o ano-símbolo de um tempo real, transcorrido entre a rejeição do Cristo-Salvador, pelos judeus, e a destruição nacional deles.






             (Continuaremos este estudo em “A maldição da figueira” (IV)



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Maria Helena Garrido Saddi,
Professora Doutora da Universidade Federal de Goiás,
Membro da Catedral Evangélica Hebrom.
hgsaddi@gmail.com


A Graça e a Paz do nosso Senhor Jesus Cristo,


Moacir Neto