terça-feira, 20 de agosto de 2013

O colo de Deus

Qual deve ser a atitude cristã no momento da própria dor?

Já ouvi dizer que “cabrito bom não berra”, “baseado” em Isaías 53.7, que diz que o Cordeiro “não abriu a sua boca”. Mas já ouvi também que “quem não chora não mama”, com “suporte” em Mateus 5.4, que diz serem bem-aventurados os que choram.

Tem gente que, por índole ou formação, logo pede socorro. Gosta de ter muita gente em volta e fala dos problemas sem embaraço. Mas tem gente que prefere calar-se, “encaramujar-se”.

As duas atitudes me parecem humanas. Aquele que logo procura ajuda não quer ficar sozinho com os problemas. Já o outro se isola, absorto pela dor, que lhe rouba toda a energia e diz: “Não se distraia, estou aqui”.

Em um extremo, o extrovertido pode não aprender muito com o sofrimento, pois não se detém para aprofundá-lo; quer logo se livrar dele, falar sobre ele, pedir oração. Corre também o risco de ser machucado, pois essa abertura o torna vulnerável à rapina fraterna. Pode se transformar até mesmo em tema de sermão dominical.

No outro extremo, o introvertido perde muito do conforto que poderia ter com o conselho sensato, com as orações, com a ajuda objetiva. Ao se isolar, preserva a imagem, a privacidade, mas terá de resolver tudo sozinho. Eventualmente, um fardo excessivo e desnecessário, pois a solução, ironicamente, poderia estar com o irmão não consultado.

Para além desses dois modelos naturais, a atitude cristã deve considerar a Igreja. Crer na Igreja significa crer no pertencimento a um corpo, nas juntas que nos vinculam a ele. Crer na Igreja é crer na comunhão dos santos; em andar na luz, sem medo de se achegar a ela; é crer na submissão de uns para com os outros, em verdade e em amor.

Outro dia, ouvi um irmão dizer: “Hoje não vou à igreja, estou com muitos problemas”. Ele se referia ao culto. Parecia ter perdido de vista que aquele era um bom lugar para buscar a graça de Deus, intervenção divina direta ou por meio dos irmãos. Em seu desânimo, abria mão da possibilidade de uma ação misericordiosa de Cristo por meio do seu corpo, momento inefável em que experimentamos o “colo de Deus”.

Não sou muito de compartilhar minhas dores. Tenho medo de me tornar um fardo ou de parecer fraco. Estou mais para o segundo grupo, portanto. Mas tenho aprendido que, para além de índole, formação ou temores, um gesto de fé me é requerido, especialmente no sofrimento: o gesto da confissão (Tg 5.16). Talvez um exercício permanente de confissão, com todos os riscos que envolve. É necessário, então, crer na Igreja e na comunhão dos santos.

Entendo essa confissão de Tiago como parte do “andar na luz” de João. É mais do que pedir perdão; é dizer quem sou. Dar-se a conhecer foi o gesto de Emanuel. Por fé sou chamado a fazer o mesmo na Igreja, mesmo que muitos reajam com o insensato “crucifica-o!”.

Assim, mesmo temeroso, vou e falo de mim; em especial, dos meus problemas e limitações. Sim, confesso também meu pecado. E busco forças para não “dourar a pílula”.

É o momento em que, por obediência, revelo toda a minha fragilidade e confusão. É quando abro mão da minha imagem, preferindo a obediência à aparência.

Autoria: Rubem Amorese  

Por Litrazini
http://www.kairosministeriomissionario.com/ 

Graça e Paz