domingo, 2 de fevereiro de 2014

Aonde nos leva nossa fé

No capítulo 12 de Gênesis temos registrado um dos acontecimentos mais importantes – senão o mais – da história político-social de Israel: o chamado de Abraão. Tida como ponto inicial da formação do povo, primeiro hebreu, depois israelita e, finalmente, judeu, a saída de Abraão da Mesopotâmia inicia a fase dos patriarcas e expõe o projeto de Deus de uma forma mais clara e abrangente. Mas é muito mais do que isso.

Se observarmos as entrelinhas da narrativa veremos os mesmos elementos que até hoje permeiam a fé comum que os homens têm no Deus que chamou Abraão, o Deus de Israel.

Vejamos as palavras do Senhor.
“Sai da tua terra, da tua parentela, e da casa do teu pai”. Aqui, cada um desses elementos tem um significado especial.
“Tua terra”. quer dizer “teu território”, “tuas posses”. Os vales, os rios, os montes, o cheiro das plantas, todo o ambiente que ele aprendeu a chamar de “minha terra”.
“Tua parentela”. Não somente os parentes em geral, mas todos os que faziam parte de sua história, amigos, vizinhos, parentes distantes, primos, sobrinhos, etc.
“Casa do teu pai”. A segurança. O suporte. O alicerce pessoal.
Jeová pede para que Abraão, já um homem adulto, casado, ainda que sem filhos, simplesmente dê às costas a tudo isso para obedecer a seu chamado. E aqui começa a primeira lição da narrativa.

1. Deus está acima de qualquer realidade que conhecemos. E é melhor que todas elas.
E nisso estamos incluindo todo o mundo formado à nossa volta desde o momento em que somos gerados (terra, parentela, casa do pai). São todos esses elementos que constroem a nossa identidade, que nos fazem ser o que e quem realmente somos. Deixar essas coisas para trás significa “negar-se a si mesmo”, renunciar a própria vida, daí podermos entender Mateus 16.24-25, quando Jesus sugere a nós, em outras palavras, que façamos o que Deus mandou que Abraão fizesse:
“Então disse Jesus aos seus discípulos: Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, mas quem perder a sua vida por amor de mim, achá-la-á”.

Muitos irão para o inferno porque não quiseram ou não conseguiram abrir mão de suas vidas por amor a Deus. Porque consideraram que abrir mão de suas tradições, religião (no caso de Abraão, religião idólatra e pagã, típica daquela região), de seus costumes, de sua zona de conforto para seguir a Deus que não se vê, para um lugar que só conheceremos quando lá chegarmos, por uma promessa que não apresenta nenhum vestígio material ou concreto de que será realizada, é uma prova grande demais. Um sacrifício que não vale à pena.

Que exemplo melhor podemos encontrar no Evangelho que o jovem rico (Lucas 18)? Assim como Abraão, teve o privilégio de ouvir a voz de Deus lhe chamando. Esteve na presença do Mestre. Mas não teve forças para abrir mão de seu mundo, de, como disse Jesus em Mateus 16.25, ‘perder a sua vida’. Ao perder sua vida terrena Abraão, com mais de 70 anos de idade, encontrou a vida eterna.

2. A fé é o primeiro fundamento. Todos os outros dependem dela.
Sabemos que o alicerce da vida cristã é a Palavra de Deus. Mas isto só será possível se crermos no que nela está escrito. Muitos lêem as Escrituras apenas para adquirem informação. Outros, para se prepararem para debates. Outro grupo o faz por tradição ou ritual, na hora do culto. E finalmente há os que a lêem como um amuleto, como se simplesmente sua leitura fosse lhes trazer sorte.

Somente uma pequena parcela lê a Bíblia como ela deve ser lida: como a Palavra de Deus, perfeita, imutável, incontestável, santa. Crêem em absolutamente todas as suas palavras, e, porque acreditam nela, se esforçam para cumprir o que nela está escrito. Para Deus, crer não é simplesmente acreditar. Mas viver o que se acredita. Ao que Jesus pergunta em Lucas 6.46... “Por que me chamais Senhor, Senhor, e não fazeis o que eu mando?” E foi aí que tudo começou: com a fé de Abraão. O homem que ouviu a Palavra e creu. E porque creu, obedeceu. Ouvir sem cumprir é como comprar um remédio, ler a bula, e tomar o medicamento de um modo completamente contrário ao que lá está prescrito. Parece loucura? Sim. Loucura que os homens cometem todos os dias, ao ouvirem a Palavra de Deus, se interessarem por ela, mas não a adotarem como regra de vida.

Se eu creio que há um Deus, e que este me deu sua Palavra, o que me impede de obedece-la? Será que não é minha falta de fé, que eu insisto em dizer que tenho, mas que no fundo, nem sei se existe? Precisamos ter cuidado, o autor em Hebreus 11.6 afirma que “sem fé é impossível agradar a Deus”. Abraão sabia disso.

3. A promessa de Deus é maravilhosa. Mas só para quem vai atrás dela.
Quando estava vivo, Moisés deixou bem claro que os únicos homens que foram contados no recenseamento do deserto que entrariam em Canaã seriam Josué e Calebe. O restante morreria e seus corpos seriam deixados no deserto (Nm.14). Naquela ocasião, assim como Abraão, Josué e Calebe creram na promessa de Deus. Promessa que havia sido feita séculos atrás para quem? Sim, para ele mesmo, Abraão. Quarenta e cinco anos depois, no momento em a terra estava sendo repartida entre as tribos, Calebe se apresenta (Js.14) e lembra Josué da promessa de Deus. Ele nunca duvidou.

Mesmo com o passar dos anos, com o aparecimento das adversidades, dos inimigos que enfrentaram no deserto, ele manteve sua fé no lugar. E foi abençoado. A bênção do Senhor exige compromisso. Sacrifício. É o princípio da semeadura. Só colhe quem planta.


Olhemos de uma forma geral para as promessas de Deus a Abraão:
a) Torná-lo uma grande nação e abençoá-lo.
b) Ter seu nome engrandecido e torná-lo uma bênção.
c) Cuidar de sua caminhada até o fim.
É ou não é tudo que todos querem? Não estão nessas promessas contidos todos os sonhos da humanidade? E quem mais poderia cumpri-las senão aquele que é Senhor de todo o universo? E o que fez o Eterno?

Aos 12 anos de idade, deixou sua casa em Nazaré, perdeu-se de sua parentela e, quando foi encontrado disse que estava na casa de seu Pai. Hoje cremos nele e não em Abraão. Abraão aos 75 anos. Ele aos 12. Não há idade para se começar a caminhar com Deus.

O chamado que há quase 4 mil anos foi feito ao pai da fé, lá na Mesopotâmia, continua sendo feito até hoje. A diferença, no entanto, é especial. Abraão não tinha idéia de para onde iria. Nós sabemos para onde iremos. E com quem estaremos. Deus está chamando. Creia. E viva.

Milton Curvina Neto

Por Litrazini


Graça e Paz