sexta-feira, 14 de outubro de 2016

ENCONTRANDO A NÓS MESMOS

Pois quem quiser salvar a sua vida, a perderá; mas quem perder a sua vida por minha causa e pelo evangelho, a salvará. (Marcos 8.35)

Como esse versículo fala de salvarmos e perdermos a nossa vida, eu costumava pensar que ele se referia especificamente aos mártires cristãos que, ao morrerem por Cristo, entravam na vida eterna.

Embora o versículo possa incluir uma referência a martírio, agora vejo que Jesus tinha uma aplicação muito mais ampla em mente do que essa. A linguagem indica isso. A palavra traduzida por “vida”, psuche, quer dizer “alma” ou “eu”. Na verdade, Lucas transmite a declaração de Jesus com o reflexivo simples: “Pois que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, e perder-se ou destruir a si mesmo?” (Lc 9.25).

Alguém poderia talvez parafrasear o epigrama favorito de Jesus, que ele parece ter usado em vários contextos diferentes, desta maneira: “Se você insistir em agarrar-se a si mesmo, e recusar abrir mão de si, e determinar viver por si mesmo, você se perderá. Esse é o caminho da morte, não o caminho da vida. Mas, se você estiver disposto a perder-se, a entregar-se em amor ao serviço do evangelho, então, no momento de completo abandono, quando pensar que perdeu tudo, os milagres acontecerão, e você encontrará a si mesmo”.

Em anos recentes, várias escolas de psicologia têm desenvolvido essa posição que enfatiza a autopercepção. As palavras soam promissoras a ouvidos cristãos, até que nos lembremos de que, segundo Jesus, o único caminho para a autodescoberta é o da autonegação, e o único caminho para viver é morrer para o nosso egoísmo.

Em dois epigramas semelhantes, Jesus usou linguagem comercial — a linguagem do lucro, do prejuízo e da troca. Ele fez duas perguntas retóricas, que permaneceram não-respondidas.

Primeira: Que proveito há em se ganhar o mundo inteiro (toda a riqueza, o poder e a fama que ele oferece) e perder a si mesmo?

Segunda: O que alguém ganharia em troca de si mesmo?

Ambas as perguntas enfatizam o valor infinito do eu em contraste com o valor do mundo. Por um lado, é impossível ganhar o mundo inteiro. Por outro, se fosse, isso não seria algo duradouro, e, conquanto durasse, não traria satisfação.

E disse-lhe um da multidão: Mestre, dize a meu irmão que reparta comigo a herança.
Mas ele lhe disse: Homem, quem me pôs a mim por juiz ou repartidor entre vós? … E disse: Farei isto: Derrubarei os meus celeiros, e edificarei outros maiores, e ali recolherei todas as minhas novidades e os meus bens; E direi a minha alma: Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e folga. Mas Deus lhe disse: Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? Assim é aquele que para si ajunta tesouros, e não é rico para com Deus. Lucas 12.13-21

Retirado de A Bíblia Toda, o Ano Todo [John Stott]. Editora Ultimato.

Por Litrazini

Graça e Paz