domingo, 16 de setembro de 2018

A CENTRALIDADE DA PALAVRA


O amor pela Bíblia encontrou expressão em vários desdobramentos notáveis. A vida das comunidades protestantes passou a girar em torno das Escrituras e da sua mensagem. A própria arquitetura dos templos passou a refletir as novas convicções: a decoração modesta, a ausência de imagens e do altar, o destaque dado ao púlpito e à mesa da comunhão.

O foco central do culto passou a ser a pregação expositiva da Bíblia, bem como a celebração dos sacramentos da ceia e do batismo. Os pastores ficaram conhecidos como “ministros da Palavra”.

Em contraste com a Idade Média, em que a arte sacra era considerada “a Bíblia dos ignorantes”, os reformados passaram a incentivar a educação para que as pessoas pudessem ler a própria Bíblia. Paralelamente, houve uma produção sem precedentes de novas traduções em linguagem acessível ao povo.

Uma das maiores contribuições de Lutero foi a Bíblia alemã (1534), um monumento literário desse idioma. Mais importante foi a Bíblia inglesa, devido à sua influência na história posterior do movimento protestante.

A primeira tradução impressa foi a de William Tyndale (1525-1530), martirizado em Bruxelas em 6 de outubro de 1536. Dos 6 mil exemplares do seu Novo Testamento, somente dois chegaram até os nossos dias. Ainda no século 16, surgiram várias outras versões inglesas: Bíblia de Coverdale (1535), Bíblia de Matthew (1537), Grande Bíblia (1539), Bíblia de Genebra (1560) e Bíblia dos Bispos (1568).

Como seria de se esperar, as Escrituras influenciaram poderosamente todos os aspectos do universo protestante: a teologia, a liturgia, a pregação, a hinódia, a devoção pessoal e familiar, a vida intelectual, a literatura e a arte, bem como as concepções éticas, políticas e sociais.

Nos países marcados pela Reforma, o próprio idioma absorveu um grande número de palavras e expressões bíblicas.

A Bíblia esteve também por trás dos grandes movimentos de revitalização das igrejas evangélicas, como o puritanismo inglês, o pietismo alemão e os grandes despertamentos. Desde o século 16, com os próprios reformadores, o estudo dos textos nas línguas originais e a adoção de princípios equilibrados de exegese e hermenêutica (como o método histórico-gramatical) têm gerado um imenso e valioso legado de reflexão bíblica.

Outra área da vida das igrejas que teve profunda conexão com as Escrituras foi o esforço missionário.

Desde os primeiros contatos com povos não-cristãos, os protestantes se preocuparam em traduzir a Bíblia para as línguas nativas. Essa preocupação se intensificou a partir do final do século 18, por meio de homens como William Carey, que verteu as Escrituras para várias línguas do subcontinente indiano. Fator importante nesse processo foi o surgimento das grandes sociedades bíblicas — a Britânica (1804) e a Americana (1816). Por meio de seus agentes, os valorosos colportores, essas sociedades espalharam a Bíblia pelo mundo afora. Hoje, graças aos esforços de organizações como Tradutores Wyclif da Bíblia, são relativamente poucas as pessoas que não têm nenhuma parte das Escrituras em sua língua materna.

Alderi Souza de Matos

Por Litrazini
Graça e Paz