quarta-feira, 23 de novembro de 2016

UMA CHAMADA RADICAL

E, andando junto do mar da Galiléia, viu Simão, e André, seu irmão, que lançavam a rede ao mar, pois eram pescadores. E Jesus lhes disse: Vinde após mim, e eu farei que sejais pescadores de homens. E, deixando logo as suas redes, o seguiram. E, passando dali um pouco mais adiante, viu Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, que estavam no barco consertando as redes, E logo os chamou. E eles, deixando o seu pai Zebedeu no barco com os jornaleiros, foram após ele. (Mc .1.16-20)

Desde a cena à margem do mar da Galiléia até à cena da chamada e envio dos discípulos, os Evangelhos não escondem que entre a multidão de seguidores havia os comprometidos com um compromisso radical. Um texto que ilustra isso é o do jovem rico. Afinal ninguém pode servir a dois senhores (Lc 18.18-23; Mt 6.24).

Jesus não fundou comunidades locais, mas deu origem a um movimento de carismáticos itinerantes. O movimento de Jesus é, antes de tudo, uma desestabilização da religião institucionalizada na sinagoga e no templo. Os discípulos primitivos tornaram-se apóstolos que, itinerantes, andavam de lugar em lugar, sempre em busca de simpatizantes ou prosélitos à sua pregação. Num primeiro momento, dentro do Judaísmo; depois, fora dele. 

É curioso notar que, no relato introdutório de Atos, a igreja primitiva de Jerusalém foi dirigida por doze apóstolos (cf. At 1.12ss). Lucas projeta no passado seu ideal presente de uma igreja dirigida por um colegiado. Fato que é visto contrariamente nas alusões de Paulo à igreja de Jerusalém, pois, em sua visita, três anos depois, ele não encontrou senão a Pedro (cf. Gl 1.18). Onde estavam os demais? A resposta é que estavam pregando e curando, à luz do que Jesus havia feito e recomendado que eles fizessem (cf. Mc 3.13ss ou Lc 10.1-11).

Numa segunda viagem, Paulo encontra as três colunas (cf. Gl 2.9). O grupo dos doze ou dos 120 dispersou-se logo no início do Cristianismo, tornando-se uma comunidade de itinerantes. O próprio ministério de Paulo revestiu-se dessa característica. Essa característica de Jesus e de seus discípulos tem um contorno sociológico. 

Os discípulos, com nítidas características carismáticas, são os moldadores das tradições mais antigas, e constituem o pano de fundo social de uma parte significativa da tradição sinótica. Seus esforços pela recuperação das palavras (logias) de Jesus, através de citações em suas pregações missionárias, representam a melhor fonte do que hoje se convencionou chamar de Evangelho anterior aos evangelhos.

Podemos dizer que certas ordens de Jesus como Rabi, a esses discípulos, são por eles perpetuadas em seus comportamentos e formas de convívio social, pois foram eles que praticaram e transmitiram tais palavras. Foram eles que deram as bases missionárias e que fundaram igrejas como Samaria, Cesaréia, Antioquia e Damasco.

O mais interessante nesse movimento missionário dos discípulos são as normas éticas, porque fazem referências diretas ao comportamento dos seguidores de Jesus, mesmo em estilo missionário. Nesta ética, encontra-se o fundamento sociológico, com sérias implicações político-econômicas, pois envolvem renúncia a lugar estável (cf. Mt 8.20), à família (cf. Mt 10.37-39), à prosperidade (cf. Mt 4.22; 19.37), e ao sustento (cf. Mt 6.25-33; 10.8-10).

Paulo Lockmann

Por Litrazini

Graça e Paz