quinta-feira, 11 de agosto de 2011

A MALDIÇÃO DA FIGUEIRA: Injustiça de Jesus Cristo? - Parte 1


               E, no dia seguinte, quando saíram de Betânia, [Jesus] teve fome. E, vendo de longe uma figueira que tinha folhas, foi ver se acharia nela alguma coisa; e, chegando a ela, não achou senão folhas, porque não era tempo de figos. E Jesus, falando, disse à figueira: nunca mais coma alguém fruto de ti. E os seus discípulos ouviram isto. [...].   E eles, passando pela manhã, viram que a figueira se tinha secado desde as raízes. (Evangelho segundo S. Marcos, 11:12 a 14 e 20).



            O texto evangélico, transcrito acima – tomado fora do contexto escriturístico em que se insere e submetido a uma leitura literal, simplista – só   pode levar a um entendimento desastrosamente  incorreto de sua mensagem de alto teor simbólico.

          Paradoxalmente, o Ungido, anunciado pelo profeta Isaías como Aquele que teria a justiça como cinto dos seus lombos (Is 11.5), aparece, nesse relato neotestamentário, amaldiçoando uma figueira que não produzira figos, "porque não era tempo de figos".

          E então?  Está-se diante de um grande impasse teológico?  Ou de uma grandiosa provocação ao espírito sinceramente engajado na busca das profundas coerências essenciais, tendentemente ocultas sob impactantes aparências de incongruência?

          Para respondermos a tal questionamento, redigimos, há alguns anos, uma verdadeira tese teológico-teórico-literária, intitulada "A parábola viva, estranhada no discurso crístico", sob a honrosa orientação acadêmica do Emérito Prof. Dr.Gilberto Mendonça Teles. E o fizemos, movida pelo prazer de demonstrar a esplêndida riqueza expressiva do texto, devidamente contextualizado, de modo a fazer ver o absurdo de se admitir que Jesus Cristo pudesse cometer um  mesquinho ato de violência vingativa contra uma árvore, levado  pela fome física.

           Ele, que, para ser tentado pelo diabo, se privara do pão, por quarenta dias, na reclusão sacrificial do deserto (Lc 4.2) e multiplicara cinco pães e dois peixes, para alimentar a mais de cinco mil pessoas (id., ibid., 9.14,16-17)?  Ele, que, instado pelos discípulos a comer, lhes dissera: "A minha comida consiste em fazer a vontade daquele que me enviou a realizar a sua obra" (Jo 4.34) e que, doutra feita, lhes declarara:"Eu sou o pão da vida; o que vem a mim jamais terá fome" (Id., ibid.,6:35)?  Ele, que conhecia e dominava  divinamente a natureza (Lc 5.4-6; Mt 8.26), não saberia que não havia figos na figueira, mesmo porque não era tempo de figos?  Ele, que, agonizante na humilhação do calvário, perdoara a seus algozes, orando:"Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem" (Lc 23.34)?  Ele, que impressionou e impressiona o mundo, com o altíssimo nível de sua inteligência e sabedoria,  cometeria a incoerência insana de se irar contra um ser vegetal, a ponto de matá-lo?  Ele?!...

           Pois bem! presentemente, tocada por fortes razões, decidimo-nos a aceitar o tremendo desafio de extrairmos o sumo bíblico de todo aquele trabalho acadêmico (nossa dissertação de Mestrado), de modo a transformá-lo numa publicação jornalística. E aqui estamos. 

            Primeiramente, importa considerar-se que a incompatibilidade entre os textos supracitados (o oráculo de Isaías e o registro de S. Marcos), perceptível pelo tipo de leitura caracterizado na introdução deste artigo, desfaz-se, com segura eficácia, à luz de uma leitura proficiente. Para proceder-se a ela, é imprescindível que se situe o texto dentro do contexto bíblico, já que ele constitui uma parte, ou seja, uma porção do todo das Sagradas Escrituras. E é nelas que estão os implícitos desse depoimento de S. Marcos, que precisam de ser convocados, para suprirem a laconicidade de seu estilo de repórter. Limitar-se o entendimento de tal documento à extensão objetiva e imediata de sua leitura é, absolutamente, não entendê-lo.

              É como pretender saber a que pessoa desconhecida pertence determinado membro, amputado e distanciado do corpo dela, submetendo o dito membro ao exame exclusivo dele. Não foi sem razão que, no primeiro seminário internacional sobre métodos do discurso narrativo, em Urbino, na Itália, destacou-se o entendimento de que "o contexto pode fazer parte da estrutura do texto. [...] alguns traços estruturais do texto são elementos autênticos do contexto" (T,Todorov, Literatura e   semiologia, 1972


          (Continuaremos este estudo em “A maldição da figueira” (II)


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Maria Helena Garrido Saddi
Professora Doutora da Universidade Federal de Goiás,
membro da Catedral Evangélica Hebrom.
hgsaddi@gmail.com




A Graça e a Paz do Senhor Jesus Cristo,


Moacir Neto