domingo, 3 de fevereiro de 2013

As três parábolas dos achados e perdidos


O evangelho
“Este meu filho estava morto e voltou à vida; estava perdido e foi achado”. E começaram a festejar o seu regresso. (Lucas 15.24)

Lucas 15 deve com certeza estar entre os capítulos mais conhecidos e amados da Bíblia, porque consiste nas três parábolas dos achados e perdidos — a da ovelha perdida, da moeda perdida e do filho perdido. Elas têm sido interpretadas de diferentes maneiras, e eu devo deixar que meus leitores julguem se minha ênfase sobre duas verdades é legítima ou não. Iremos refletir sobre o evangelho hoje e sobre missão amanhã.

A parábola do filho perdido nos dá uma descrição vívida da perdição humana. Ela é a autobiografia de todos nós. O filho fez uma deliberada declaração de independência. Exigir sua parte na herança foi o equivalente a desejar a morte de seu pai. Na terra distante, então, sua vontade própria degenerou em autoindulgência. Seu estilo de vida se tornou extravagante e imoral. E quando a fome chegou, ele se rebaixou a ponto de alimentar porcos (algo nojento para os judeus). Ninguém levantou nem sequer um dedo para ajudá-lo. Ele estava falido, faminto e só.

Enquanto isso, o amor de seu pai por ele nunca vacilou. Ele sentia falta do filho e ansiava por seu retorno. Isso é graça, a saber, amor imerecido e não- solicitado. Além disso, o amor de Deus sofre por nós.

Alguns críticos liberais argumentam que na parábola o pai não correu riscos e não sentiu dor. Muçulmanos também mencionam a parábola e insistem em que o jovem foi salvo sem um Salvador, pois a parábola ensina perdão sem propiciação. No entanto, o Dr. Kenneth Bailey, um especialista na cultura do Oriente Médio, explica em The Cross and the Prodigal [A cruz e o pródigo] o valor da parábola. Toda a vila teria sabido que o filho estava em desgraça, merecendo ser punido. Mas, em vez de infligir sofrimento a seu filho, o pai suporta, ele mesmo, o sofrimento. 

Um homem de sua idade e posição sempre caminhava com passos lentos e dignos, e nunca corria a parte alguma. No entanto, lá está ele correndo pela estrada, expondo-se ao ridículo diante de toda a vila, e recebendo sobre si a vergonha e a humilhação pelo retorno do filho. O pai descendo e saindo sugere a encarnação.

O espetáculo humilhante na rua da vila sugere o significado da cruz.

Para saber mais: Lucas 15.11-24

A missão 
Todos os publicanos e “pecadores” estavam se reunindo para ouvi-lo. Mas os fariseus... o criticavam: “Este homem recebe pecadores e come com eles”. Lucas 15.1-2

O próprio comentário editorial de Lucas, descrevendo o contexto no qual as três parábolas são contadas é, na maioria das vezes, desprezado. Os publicanos eram repudiados por dois motivos. Porque colaboravam com a odiada ocupação romana (ou, na Galileia, trabalhavam para Herodes Antipas) e porque eram normalmente culpados de extorsão.

O termo pecadores, por outro lado, era usado pelos fariseus para insultar as pessoas comuns, ignorantes da lei. Os fariseus discriminavam ambos os grupos. Assim, quando Jesus se associou a eles, sentiram-se ultrajados. “Este homem recebe pecadores”, diziam eles horrorizados. Mas Lucas registra isso com aprovação e até mesmo admiração. Assim deveríamos nós fazer. De fato, pecadores são as únicas pessoas que Jesus acolhe. Se não acolhesse, não haveria esperança para nós!
Jesus contou suas três parábolas dos achados e perdidos a fim de ilustrar a diferença fundamental entre ele e os fariseus. Ele recebeu pecadores; eles se opunham a eles e os rejeitavam. Tinham uma noção falsa de santidade. Pensavam que seriam contaminados pelo contato, de modo que mantinham distância. Jesus, no entanto, confraternizava com eles livremente e era chamado de “amigo de publicanos e ‘pecadores’” (Mt 11.19). Se os fariseus vissem uma prostituta se aproximando, recolhiam suas vestes ao redor de si e se esquivavam dela, mas, quando uma prostituta se aproximava de Jesus, ele não se esquivava e aceitava a sua devoção.


Então, a questão que se coloca diante de nós é se nos assemelhamos a Jesus ou aos fariseus, se evitamos o contato com pecadores ou buscamos por eles. Não podemos compreender mal isso. O fato de Jesus ter acolhido a pecadores não significa que tenha justificado seus pecados. Ao contrário, todas as três parábolas terminam com uma nota de arrependimento e de celebração. Jesus rejeitou os extremos opostos do farisaísmo e do comprometimento. Há alegria no céu, disse ele, quando um pecador se arrepende.

Porque esse “homem recebe pecadores”, devemos acolhê-los também. A missão autêntica é impossível sem isso.

Para saber mais: Lucas 15.1-10

Retirado de “A Bíblia Toda, O Ano Todo” (John Stott). Editora Ultimato, 2007.

Por Litrazini

Graça e Paz